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13 de junho de 2002 |
Vermelho, verde, amarelo
Rui Bebiano
Aos meus amigos brasileiros
Escrevo num dia de Junho. Mas nem parece Junho, neste dois-mil-e-dois tão estranho em que o efeito de estufa nos faz ir à praia em Dezembro e tiritar de frio em pleno Estio. Há por aí quem diga que tudo isto acontece porque "eles" ("eles" os americanos, bem entendido) foram à lua. O problema é outro: na lua andamos todos - eles e elas - enquanto damos cabo do ambiente e do futuro. Prefiro pois falar do presente. Neste recanto peninsular, tal como na maior parte do planeta, o presente presente é construído à volta do Mundial de futebol. Pelo prazer do jogo ou por falta de assunto, não se fala de mais nada e em pouco mais se pensa. Mas seja qual for o desfecho e o país campeão uma coisa está garantida: dele sairão vencedores os canais de TV por cabo que conseguiram roubar o maior espectáculo do mundo aos cidadãos que, por opção ou prioridade orçamental, entenderam não pagar os seus serviços. Tratou-se de um atentado à democracia, pois contrariaram-se direitos de usufruto adquiridos. O problema é que aqueles que mais se importam com isso são os mesmos que nem voz têm para protestar, já para não falar de dinheiro para assinar os tais canais. E como, neste jardim à beira-mar, até se pensa agora em prescindir do serviço público de televisão, para quê preocuparem-se com tal coisa as nossas ocupadas autoridades? Talvez estejam a esquecer-se de que, para manter o poder, na antiga Roma nunca deixavam os imperadores de juntar ao pão doses suficientes de circo. Talvez estejam, mas esse é um problema deles. Tenho reparado ainda numa outra diferença em relação aos hábitos notados durante as taças do mundo do passado que sou capaz de recordar: a maioria dos meus compatriotas deixou, ao que parece, de ter o mesmo interesse que em tempos teve pelas vitórias da selecção brasileira. Passou do oitenta ao oito, olhando-as agora com uma certa indiferença. Isto é tanto mais estranho quanto esta tendência é acompanhada pela generalidade dos meios de comunicação. Aqueles que há 4, 8, 12 anos atrás, em grandes títulos, elogiavam as vitórias antecipadas do escrete cor de canário - quando o futebol luso era bem menos respeitado do que hoje e muitos brasileiros faziam piada com uma turma de "manuéis" jogando a "bola quadrada" - parecem não dar agora mais importância a Ronaldo, Rivaldo & Cia. do que aquela que é oferecida às selecções tunisina ou costa-riquenha... Estranho? Só mesmo na aparência. Existem suspeitas que temo se venham a confirmar. Não se trata daquela diferença cultural que, segundo os estereótipos, separa um povo supostamente ruidoso, extrovertido, que se ri mostrando as gengivas ao ritmo do samba, de outro sério demais, introvertido, por vezes aborrecido de morrer no seu fatalista fado. Lampião contra Zé do Telhado. Coisa pouca para tanto em comum, apesar do mar que nos separa (tanto mar para Chico Buarque ou para Eusébio, que detesta aviões, tão pouco para Sousa Cintra e Jardel). O que parece estar a acontecer é que o afluxo de cidadãos do Brasil que pretendem fixar residência em Portugal - e nos últimos dois anos já ultrapassaram as 40.000 entradas, para não falar daqueles que já cá se encontravam - está a fazer levantar certos laivos, algo preocupantes, do que parece ser alguma xenofobia, neutralizando, ao mesmo tempo, a imagem distante mas simpática do brasileiro que nos chegou do passado. Para a maioria dos portugueses europeus, o brasileiro foi durante muito tempo figura distante, mais retirada da ficção do que da vida vivida. Ex-emigrante, o "brasileiro" de torna-viagem - "grande fornecedor do nosso riso", como o qualificou Eça - mais não era do que um português um tanto esquisito, tilintando moedas na algibeira, exibindo mansões espampanantes e roupa vistosa, conseguidos sabe-se lá como (a regra foi sempre não perguntar). Depois tornou-se personagem ainda mais estranha, representada pela imagem exótica de Cármen Miranda (de Marco de Canavezes, ora bem) ou mimada no sotaque geralmente utilizado pelas parelhas de palhaços que, em espectáculos de circo, abusavam do gerúndio. Após décadas de costas viradas, eis porém que pelos finais dos anos 70, por intervenção da novela televisiva importada, se afirmou um novo brasileiro típico, mais respeitado, imaginado na pele das personagens que, algures numa moradia de luxo do Leblon ou de Angra dos Reis, chocalhavam cubos de gelo em copos de uísque. O povo, esse passou a ser representado como feliz e protegido serviçal do grão-fino, sempre alegre e bem disposto para lá dos pequenos problemas amorosos. E de repente, entre ucranianos, moldavos, angolanos ou guineenses às centenas de milhar, eis que começaram a aparecer um pouco por toda a parte cidadãos com sotaque de além-Atlântico. Não apenas sobre a relva dos estádios ou em consultórios de dentista, como retrata a caricatura, mas pendurados em andaimes das obras e consertando fios de alta tensão, servindo à mesa em bares e restaurantes, vendendo enciclopédias porta a porta, atrás do balcão em pequenos negócios. Num caso ou outro, mais bem sucedidos, também como publicitários de renome, professores de universidades ou empresários de sucesso. Mas sempre como figuras que a realidade do quotidiano deslocou do romanesco. Para os portugueses, os brasileiros deixaram de ser figuras de capa de revista ou "cromos da bola": agora, como todos, são gente de carne e osso, com as coisas boas e as coisas más da gente de carne e osso. Participam de um dia-a-dia em relação ao qual, devido a factores de diferenciação cultural, defrontam alguma incompreensão. Por motivos banais, por vezes: o seu à-vontade passou a ser confundido com má educação, a sua exuberância com impertinência, a sua mania de criticar com propensão para o desacato. O seu lugar no mercado de trabalho, de grande disponibilidade que a necessidade aguçou, tem sido igualmente, em alguns sectores, interpretado como concorrência desleal, de quem come, aos preços módicos que muitos patrões aproveitam, do prato que falta na mesa de alguns portugueses. No entanto a memória é curta. A maioria daqueles que assim pensa esquece-se que tem na família - é quase impossível que o não tenha - antepassados, amigos, familiares, que em algum momento atravessaram o mar e desembarcaram em terras brasílicas, procurando o pão que aqui não tinham, ou a liberdade que aqui lhes fugia. Que lá passaram dificuldades, por vezes também alguma incompreensão, mas acabando aceites e integrados. Como aceites e integrados acabarão muitos dos cariocas, paulistas, gaúchos ou nordestinos que aqui decidiram seguir a sua vida. Por isso, que se esqueça a selecção brasileira, perdido que está o complexo luso de inferioridade futebolística. Que mal tem isso? Mas que tal aconteça apenas porque encontrámos os nossos próprios heróis de vermelho e verde e, passageiramente, acreditamos neles. Nunca porque, por detrás da camiseta amarela suada, reconhecemos de forma simbólica alguém que olhamos como uma ameaça. Apesar de falarmos a mesma língua, apesar de respirarmos o mesmo ar. |
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