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La insignia
7 de junho de 2002


O cristianismo foi alguma vez revolucionário?


Mário Maestri (*)


Propõe-se comumente que o cristianismo possua mensagem social revolucionária. Em geral, aponta-se o caráter comunitário, se não comunista, da Igreja Primitiva como a mais perfeita expressão daquela mensagem radical. Quase senso comum, essas propostas não possuem base histórica objetiva.

Dois séculos antes do nascimento de Jesus, o escravismo pequeno-mercantil iniciava seu domínio sobre o mundo romano e, apenas dois século após sua morte, entrava em crise para, a seguir, ser superado pelas relações feudais de exploração.

Na Antigüidade, o escasso desenvolvimento das formas de existência social levava a que a religião fizesse parte da tomada de consciência do homem da natureza e da sociedade. O messias esperado pelos judeus era também e sobretudo o líder carismático que liberaria Israel do tacão romano.

A essência das religiões determina-se por sua posição objetiva diante das contradições sociais. No Mundo Antigo, tudo que fortalecia a luta dos cativos contra a ordem escravista assumia essência progressista. E, portanto, tudo que contribuía ao fortalecimento daquele modo de exploração possuía força contra-revolucionário.


Centuriões e torturados

Também a história da Antigüidade sintetiza-se na história da luta entre amos e cativos. Foi efetivamente a incessante oposição do escravo à escravidão que lhe abriu caminho à servidão da gleba e, a seguir, à emancipação pessoal do produtor feudal, processos luminares no esforço milenar do trabalhador por sua superação social.

Na Antigüidade e no Mundo Feudal, a Igreja Primitiva, a Igreja Romana e a Igreja Feudal estiveram em forma irretorquível ao lado da ordem escravista. Definitivamente, o cristianismo construiu-se como visão de mundo dos centuriões e jamais dos torturados.

Em carta aos Corintos, o apóstolo Paulo pronunciou-se pela escravidão e servidão voluntária: "Que cada um permaneça no estado em que foi chamado. Tu que foste chamado sendo escravo, não te preocupes [...]; [...] mesmo quando possas recobrar tua liberdade, ao contrário, aproveita teu estado de servidão, porque aquele que foi chamado sendo escravo é um alforriado do Senhor [...]."

Em epístola aos Efésios, assumiu o papel de feitor virtual, defendendo a dedicação do servo ao trabalho, mesmo longe dos olhos do amo. "Escravos, obedeçam a seus senhores terrenos com respeito e temor, com sinceridade de corações, como a Cristo. Obedeçam-lhes não apenas para agradá-los quando eles os observam, mas como escravos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus [...]."

Em carta a Filemon, Paulo foi igualmente reto quanto à resistência do cativo. Quando o escravo Onésimo resolveu escafeder-se e teve a má idéia de refugiar-se na casa do patriarca, o apóstolo devolve-o sem dó ao dono, após convertê-lo ao cristianismo, aconselhando o amo a ser benévolo com o fujão, já que era agora um irmão em Cristo!


Deus dos escravistas

O apoio indiscutível à ordem escravista e seu rompimento com o etnicismo e nacionalismo judaico permitiram que o cristianismo se transformasse na religião oficial do Império Romano, ordem de vocação mundial assentada sobretudo na exploração do trabalhador escravizado.

Entre os medievalistas, hoje não há mais dúvida sobre o prosseguimento na Europa das relações escravistas, como produção subordinada, até os anos mil, quando já dominavam plenamente as relações feudais de dominação. Também nessas épocas foi incondicional a adesão da Igreja ao escravismo.

A Igreja feudal continuou proclamando a igualdade espiritual dos homens no reino de deus e a desigualdade nos reinos da terra. Para ela, a servidão material fora criada e querida pelos céus. A carta do apóstolo Paulo ao escravista Filemón justificou a negativa eclesiástica do direito de refúgio das igrejas e monastérios aos cativos e a imposição da obrigação de devolver o fujão ao senhor.

A Igreja pôs seu poder espiritual a serviço da subjugação do escravo. Em Viagem ao fundo das consciências: a escravatura na época moderna, Maria do Rosário Pimentel lembra: "No concílio de Granges, no ano de 324, a Igreja definiu claramente a sua posição ao pôr sob pena de excomunhão, todo aquele que por piedade induzisse um escravo a fugir, a desprezar o seu senhor ou, simplesmente, a não o servir respeitosamente de boa vontade." Pobre escravo, rica Igreja

A Igreja apoiou e locupletou-se com o trabalho servil. Ela foi uma das grandes exploradoras de cativos dos tempos medievais. Na Espanha, paróquia que possuísse dez escravos era tida por pauperrima. A tal ponto assentou a Igreja sua riqueza e poder no cativo que os concílios proibiram que abades e bispos emancipassem-no. O servus era propriedade da Igreja e, portanto, de deus. A ninguém se permitia diminuir o patrimônio divino!

Santo Agostinho [354-430] ampliou a filhação cristã da escravidão ao justificar a instituição como expiação, em geral, do pecado original e, em particular, como registro-pena de culpa individual, querida por deus. Ninguém seria escravo injustamente. "A causa primeira da escravidão é o pecado que submeteu o homem ao jugo do homem e isso não se realizou sem a vontade de deus que desconhece a iniquidade e soube repartir as penas como pagamento dos culpados."


Castigo divino

Santo Isidoro de Sevilha [c. 560-636] solucionou as contradições da lição agostiniana, já que a explicação da escravidão como decorrência do pecado original questionava a função absolutória do batismo. Para ele, a escravidão era pena e redenção imposta àqueles homens que, por sua maldade, não possuíam condições de viver livres. A eles, deus concedera a misericórdia de pertencerem a um amo, suas consciências vivas nesse mundo terráqueo

Dizia o padre piedoso: "Devido ao pecado do primeiro homem, Deus infligiu a pena da servidão ao gênero humano: àqueles aos quais não convém a liberdade, concedeu-lhes misericordiosamente a servidão. E, mesmo sendo o pecado original lavado para todos os fiéis pela graça do batismo, não obstante, Deus, o justo, repartiu entre os homens dois gêneros de vida distintos, fazendo que uns sejam escravos e outros amos, de maneira que a tendência dos escravos a fazer o mal seja refreada por seus amos." Assim, retomava a lição aristotélica de imperfeição essencial do escravo.

Em Del esclavismo al feudalismo en Europa Occidental, o medievalista francês Pierre Bonnassie sintetizou a política da Igreja em relação à escravidão durante a Idade Média européia: "Origem divina da escravidão; perversidade genética dos escravos; necessidade da servidão como meio de redenção da humanidade pela penitência: [foram] idéias que se converteram em lugares comuns."

Então, em que se apoia a falsa interpretação do caráter socialmente libertador do cristianismo? Como já dito, ela se deve à promessa de libertação espiritual, na vida de lá, para aqueles que se submetessem à sujeição na existência de cá. Processo no qual se assentam os movimentos espiritualistas, contra os quais se erguem as visões materialistas de mundo.


O que é de César e o que é de deus

Retomando as lições dos filósofos estóicos, o cristianismo separou o espírito e o corpo, o mundo material e o espiritual, criando uma vida após a morte, o que lhe possibilitou reconhecer o servo como membro da comunidade cristã espiritual no mesmo momento em que o marginalizava a sociedade humana real.

O mesmo apóstolo Paulo que subscrevera o direito de propriedade sobre o cativo confirmava sua humanidade - "Deus não faz excepção a ninguém". Porém, no momento que o reconheceu como cristão, negou-lhe o direito ao sacerdócio, salvo exceções. Discriminação radicalizada nos séculos seguintes.

A fraternidade espiritual cristã era assim dissolvida pela objetivação quotidiana de instituições e representações que justificavam a apropriação pessoal do trabalhador escravizado e a expropriação de seu trabalho excedente como decorrências naturais de sua inferioridade essencial, querida por deus.

Ao substituir sua liberdade na vida real, por emancipação em uma vida virtual, a Igreja e o cristianismo contribuíram para construir um dos mais poderosos ópios dos oprimidos, na feliz e sempre pertinente trouvaille marxiana. Favoreceram o esgotamento das contradições sociais da vida material em angustiada sublimação subjetiva. Apoiaram a fuga do oprimido do mundo real e seu refúgio em mundo irreal.

Mesmo sendo o racionalismo materialista a mais acerada arma dos oprimidos na luta por sua emancipação, o engajamento social individual supõe apenas uma conseqüente oposição à opressão. Uma franca e leal discussão entre crentes e não crentes irmanados na luta social também contribuirá à mais rápida e plena consecução do paraíso terráqueo imperfeito onde o homem será amigo do homem.


Mário Maestri, 54, é historiador. E-mail: maestri@via-rs.net



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